no ano em que eu era comido pelo escorbuto
chegavam as tuas enviadas com limões de oiro
tu própria ias dessedentando a boca da viola
para salvar-me o canto
eis a ditosa amada, escrevi então
minha pátria
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
#124 - "Se a morte fosse uma casa branca", Fernando Jorge Fabião
Se a morte fosse uma casa branca
e eu tivesse uma palavra breve e obscura.
Se a morte fosse um sono tão leve
que o murmúrio do vento a deixasse enlouquecida.
Se a morte fosse o instante entre o ir e voltar
uma pedra redonda e frágil atirada ao sono
do mundo.
Reunia os meus mortos, falava-lhes da sombra
que habita nas coisas
das malvas rodeando o poço.
Talvez a música do vento nos salgueiros
ou a canção das abelhas ardesse
intacta por dentro das palavras.
e eu tivesse uma palavra breve e obscura.
Se a morte fosse um sono tão leve
que o murmúrio do vento a deixasse enlouquecida.
Se a morte fosse o instante entre o ir e voltar
uma pedra redonda e frágil atirada ao sono
do mundo.
Reunia os meus mortos, falava-lhes da sombra
que habita nas coisas
das malvas rodeando o poço.
Talvez a música do vento nos salgueiros
ou a canção das abelhas ardesse
intacta por dentro das palavras.
quarta-feira, 19 de abril de 2017
#123 - NUNCA O AMOR FOI BREVE..., Sebastião da Gama
Nunca o Amor foi breve,
quando deu fruto.
(Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço!)
Sagre-o a Dor, nenhum Amor é vão.
Exulta, voz das ondas!
-- O seu Amor floriu, deu fruto,
como as árvores.
Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço.
Cintilantes do Sol, saltai ao Sol,
peixes do Mar.
nunca o Amor foi triste. Nem a Vida
foi menos bela.
Baila contente, lágrima!,
baila nos olhos dela.
quando deu fruto.
(Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço!)
Sagre-o a Dor, nenhum Amor é vão.
Exulta, voz das ondas!
-- O seu Amor floriu, deu fruto,
como as árvores.
Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço.
Cintilantes do Sol, saltai ao Sol,
peixes do Mar.
nunca o Amor foi triste. Nem a Vida
foi menos bela.
Baila contente, lágrima!,
baila nos olhos dela.
terça-feira, 11 de abril de 2017
#122 - CASCAIS, Almeida Garrett
Acabava ali a Terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.
E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados,
O mar que incessante brama
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza.
Aí, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal medrados,
Seco o rio, seca a fonte,
Ervas e matos queimados,
Aí nessa bruta serra,
Aí foi um Céu na Terra.
Ali sós no mundo, sós,
Santo Deus!, como vivemos!
Como éramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!
Que longos beijos sem fim,
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim,
Como eu tinha nela tudo,
Minha alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!
Os anjos aqueles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Séculos na intensidade,
Por milénios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.
Ai!, sim! foi a tragos largos,
Longos, fundos que a bebi
Do prazer a taça – amargos
Depois... depois os senti
Os travos que ela deixou...
Mas como eu ninguém gozou.
Ninguém: que é preciso amar
Como eu amei – ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a que se há dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se anula perdida.
Ai, ai!, que pesados anos
Tardios depois vieram!
Oh!, que fatais desenganos,
Ramo a ramo, a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde de acaba a Terra!
Se o visse... não quero vê-lo
Aquele sítio encantado.
Certo estou não conhecê-lo,
Tão outro estará mudado,
Mudado como eu, como ela,
Que a vejo sem conhecê-la!
Inda ali acaba a Terra,
Mas já o céu não começa;
Que aquela visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
Dessa agreste natureza.
quinta-feira, 30 de março de 2017
#121 - SOMOS DE BARRO, Sebastião da Gama
Somos de barro. Iguais aos mais.
Ó alegria de sabê-lo!
(Correi, felizes lágrimas,
por sobre o seu cabelo!)
Depois de mais aquela confissão,
impuros nos achámos;
nos descobrimos
frutos do mesmo chão.
Pecado, Amor? Pecado fora apenas
não fazer do pecado
a força que nos ligue e nos obrigue
a lutar lado a lado.
O meu orgulho assim é que nos quer.
Há-de ser nosso o pão, ser nossa a água.
Mas vencidas os ganhem, vencedoras,
nossa vergonha e nossa mágoa.
O nosso Amor, que história sem beleza,
se não fora ascensão e queda e teimosia,
conquista... (E novamente queda e novamente
luta, ascensão...) Ó meu Amor, tão fria,
se nascêramos puros, nossa história!
Chora sobre o meu ombro. Confessámos.
E mais certos de nós, mais um do outro,
mais impuros, mais puros, nós ficámos.
Ó alegria de sabê-lo!
(Correi, felizes lágrimas,
por sobre o seu cabelo!)
Depois de mais aquela confissão,
impuros nos achámos;
nos descobrimos
frutos do mesmo chão.
Pecado, Amor? Pecado fora apenas
não fazer do pecado
a força que nos ligue e nos obrigue
a lutar lado a lado.
O meu orgulho assim é que nos quer.
Há-de ser nosso o pão, ser nossa a água.
Mas vencidas os ganhem, vencedoras,
nossa vergonha e nossa mágoa.
O nosso Amor, que história sem beleza,
se não fora ascensão e queda e teimosia,
conquista... (E novamente queda e novamente
luta, ascensão...) Ó meu Amor, tão fria,
se nascêramos puros, nossa história!
Chora sobre o meu ombro. Confessámos.
E mais certos de nós, mais um do outro,
mais impuros, mais puros, nós ficámos.
sexta-feira, 24 de março de 2017
#120 - "uma flor abriu", amadeu liberto fraga
uma flor abriu
e vi:
não foste a primeira
nem serás a última.
lembra, foste a única
que não amei.
perdoa.
e vi:
não foste a primeira
nem serás a última.
lembra, foste a única
que não amei.
perdoa.
quinta-feira, 23 de março de 2017
#119 - CHAMA E FUMO, Manuel Bandeira
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...
Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Tanto ele queima! -- e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...
Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...
Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...
A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?... -- chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...
Teresópolis, 1911.
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...
Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Tanto ele queima! -- e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...
Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...
Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor -- chama, e, depois, fumaça...
Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...
A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?... -- chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...
Teresópolis, 1911.
terça-feira, 21 de março de 2017
#118 - BALADA DO AMOR E DO ESPÍRITO, Fernando de Paços
Que bom era exprimi-la!
Mas só posso sonhá-la...
Como era bom levá-la,
como era bom!... Tranquila!
Como era bom despi-la
ao poder encontrá-la!
-- Já não sorri. Não fala.
Da carne separá-la,
como era bom despi-la!
Acordá-la e despi-la,
do seu corpo despi-la!
mas a alma, que é sua,
que bom era levá-la!
para longe levá-la...
para bebê-la, nua.
-- Já não respira... Estua.
-- Já não responde... Cala.
Mas só posso sonhá-la...
Como era bom levá-la,
como era bom!... Tranquila!
Como era bom despi-la
ao poder encontrá-la!
-- Já não sorri. Não fala.
Da carne separá-la,
como era bom despi-la!
Acordá-la e despi-la,
do seu corpo despi-la!
mas a alma, que é sua,
que bom era levá-la!
para longe levá-la...
para bebê-la, nua.
-- Já não respira... Estua.
-- Já não responde... Cala.
sexta-feira, 17 de março de 2017
#117 - SOLENEMENTE, Hermes Fontes
Juro por tudo quanto é jura... Juro,
por mim... por ti... por nós... por Jesus Cristo
-- que hei-de esquecer-te! Vê-me: estou seguro
contre o teu sólio, a cuja queda assisto.
E, visto que duvidas tanto, visto
que ris do que, solene, te asseguro,
juro mais: pelo Ser em que consisto
por meu Passado, pelo meu Futuro,
Juro pela Mãe-Virgem concebida;
pelas venturas de que vou no encalço!
por minha vida!... pela tua vida...
Juro por tudo que mais amo e exalço!...
...E, depois de uma jura tão comprida,
juro... juro que estou jurando falso!...
por mim... por ti... por nós... por Jesus Cristo
-- que hei-de esquecer-te! Vê-me: estou seguro
contre o teu sólio, a cuja queda assisto.
E, visto que duvidas tanto, visto
que ris do que, solene, te asseguro,
juro mais: pelo Ser em que consisto
por meu Passado, pelo meu Futuro,
Juro pela Mãe-Virgem concebida;
pelas venturas de que vou no encalço!
por minha vida!... pela tua vida...
Juro por tudo que mais amo e exalço!...
...E, depois de uma jura tão comprida,
juro... juro que estou jurando falso!...
quarta-feira, 15 de março de 2017
#116 - CANÇÃO DE OUTONO, António Botto
Ritmo de soluços
Tem esta triste canção
Na aparência toda calma;
É que sobe à minha boca
O que trago na minha alma.
É hoje que tenho penas.
-- As mesmas que sempre tive --
Assim lembrando-as a fundo
Sinto que a vida
Me sustem no meu declive...
Cantando, a gente, amortece
A mágoa maior que seja.
É como beijar a boca
Dalguém que também nos beija.
Coração -- pobre erradio,
Quando acabas de cantar?
-- Acaba, que tenho frio...
Dir-se-ia que vai nevar...
Tem esta triste canção
Na aparência toda calma;
É que sobe à minha boca
O que trago na minha alma.
É hoje que tenho penas.
-- As mesmas que sempre tive --
Assim lembrando-as a fundo
Sinto que a vida
Me sustem no meu declive...
Cantando, a gente, amortece
A mágoa maior que seja.
É como beijar a boca
Dalguém que também nos beija.
Coração -- pobre erradio,
Quando acabas de cantar?
-- Acaba, que tenho frio...
Dir-se-ia que vai nevar...
sexta-feira, 3 de março de 2017
#115 - NA ESQUINA DO VENTO, Cristóvão de Aguiar
minha casa plantaste na esquina do vento
onde as marés afinam suas melodias
desde então te respiro e ganho meu sustento
caiando de palavras os muros dos dias
entre o meu e o teu corpo um intervalo lento
que a baixa-mar escolta bem de penedias
redobra o meu querer-te quanto mais te invento
e só depois me vejo de órbitas vazias.
velha pecha esta minha de mergulhar
nos confins do teu nome para te procurar
e a mim também por rumos que eu já nem sabia.
à minha conta trouxe o mar dentro em mim
vazei-o no meu búzio no dia em que vim
-- ouço o marulhar não lhe cheiro a maresia.
onde as marés afinam suas melodias
desde então te respiro e ganho meu sustento
caiando de palavras os muros dos dias
entre o meu e o teu corpo um intervalo lento
que a baixa-mar escolta bem de penedias
redobra o meu querer-te quanto mais te invento
e só depois me vejo de órbitas vazias.
velha pecha esta minha de mergulhar
nos confins do teu nome para te procurar
e a mim também por rumos que eu já nem sabia.
à minha conta trouxe o mar dentro em mim
vazei-o no meu búzio no dia em que vim
-- ouço o marulhar não lhe cheiro a maresia.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
#114 - "Minha mais querida.", José Craveirinha
Minha mais querida.
Mais do que nunca
é necessário
amar.
Mas amar bem.
Amar muito.
Amar sempre mais.
Amar sim como só eu te amo.
Amar mais do que é preciso.
Amar muitas vezes desesperadamente.
Amar sempre tanto
tanto...
tanto...
tanto quase como quem delira.
Ou então meu amor
amar acima de tudo
e além de todos
mas amar sempre mais do que a raiva
mil vezes raivosa de quem na prisão
nos odeia!
Mais do que nunca
é necessário
amar.
Mas amar bem.
Amar muito.
Amar sempre mais.
Amar sim como só eu te amo.
Amar mais do que é preciso.
Amar muitas vezes desesperadamente.
Amar sempre tanto
tanto...
tanto...
tanto quase como quem delira.
Ou então meu amor
amar acima de tudo
e além de todos
mas amar sempre mais do que a raiva
mil vezes raivosa de quem na prisão
nos odeia!
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
#113 - A DUQUESA DE BRABANTE, Gomes Leal
Tem um leque de plumas gloriosas,
Na sua mão macia e cintilante,
De anéis de pedras finas preciosas
A Senhora Duquesa de Brabante.
Numa cadeira de espaldar doirado,
Escuta os galanteios dos barões.
-- É noite: e, sob o azul morno e calado,
Concebem, os jasmins e os corações.
Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
À moda goda: -- aos toques dos clarins,
Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Dizem as lendas que Satã, vestido
De uma armadura feita de um brilhante,
Ousou falar do seu amor florido
À Senhora Duquesa de Brabante.
Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
Mais loiro do que o sol, marmóreo, e lindo,
Tirar de uma viola estranhas mágoas,
Pelas noites que os cravos vêm abrindo...
Dizem mais que na seda das varetas
Do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
-- E os seus olhos mais fundos que as raízes!
Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela no seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
O que é certo é que a pálida Senhora,
A transcendente Dama de Brabante,
Tem um filho horroroso... e de quem cora
O pai, no escuro, passeando errante.
É um filho horroroso e jamais visto! --
Raquítico, enfezado, excepcional,
Todo disforme, excêntrico, malquisto,
-- Pêlos de fera, e uivos de animal!
Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
Aborto e horror da brava Natureza...
-- Em vão tentam barões, com mil discursos,
Desenrugar a fronte da Duquesa.
Sempre a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Ora o monstro morreu. -- Pelas arcadas
Do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...
Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem vilões trigueiros pelas charruas.
Riem-se os padres, junto ao seu jazigo.
Riem-se nobres e peões nas ruas.
Riem aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
-- Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...
Só, sobre o esquife do disforme morto,
Chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
-- Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!
Só ela chora pelo morto!... A mágoa
Lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Na sua mão macia e cintilante,
De anéis de pedras finas preciosas
A Senhora Duquesa de Brabante.
Numa cadeira de espaldar doirado,
Escuta os galanteios dos barões.
-- É noite: e, sob o azul morno e calado,
Concebem, os jasmins e os corações.
Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
À moda goda: -- aos toques dos clarins,
Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Dizem as lendas que Satã, vestido
De uma armadura feita de um brilhante,
Ousou falar do seu amor florido
À Senhora Duquesa de Brabante.
Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
Mais loiro do que o sol, marmóreo, e lindo,
Tirar de uma viola estranhas mágoas,
Pelas noites que os cravos vêm abrindo...
Dizem mais que na seda das varetas
Do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
-- E os seus olhos mais fundos que as raízes!
Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela no seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
O que é certo é que a pálida Senhora,
A transcendente Dama de Brabante,
Tem um filho horroroso... e de quem cora
O pai, no escuro, passeando errante.
É um filho horroroso e jamais visto! --
Raquítico, enfezado, excepcional,
Todo disforme, excêntrico, malquisto,
-- Pêlos de fera, e uivos de animal!
Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
Aborto e horror da brava Natureza...
-- Em vão tentam barões, com mil discursos,
Desenrugar a fronte da Duquesa.
Sempre a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa
Vela seu rosto de um solene véu.
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
Ora o monstro morreu. -- Pelas arcadas
Do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...
Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem vilões trigueiros pelas charruas.
Riem-se os padres, junto ao seu jazigo.
Riem-se nobres e peões nas ruas.
Riem aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
-- Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...
Só, sobre o esquife do disforme morto,
Chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
-- Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!
Só ela chora pelo morto!... A mágoa
Lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!
-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
#112 - COLEGIAL, José Régio
Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!
À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!
No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços -- e nada leves! --
Atados com um retrós...
Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!
À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!
No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços -- e nada leves! --
Atados com um retrós...
Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
#111 - À MEMÓRIA DE MEU IRMÃO JOAQUIM, Anrique Paço d'Arcos
«Escrever é vencer a Morte!»
Poemas Imperfeitos
Foi no Dia da Raça que morreste!
Mas não morreste, não: subiste aos Céus,
Onde o teu coração nas mãos de Deus,
Como um fruto de amor tu ofereceste.
E Deus sorriu, ao ver-te sem os véus
Das terrenas vaidades, e tiveste,
Lá no fulgor da Jerusalém Celeste,
A acolher-te na Luz, todos os teus.
Os teus já partiram, porque a nós,
Os que somos ainda aqui dispersos,
Quiseste um bem deixar que nos conforte:
Teu vulto de saudade, a tua voz,
Que fala nos teus livros e em teus versos,
Porque é escrevendo que se vence a Morte!
10 de Junho de 1979
terça-feira, 8 de novembro de 2016
#110 - "Elle avait pris ce pli dan son âge enfantin", Victor Hugo
Elle avait pris ce pli dan son âge enfantin
De venir dans ma chambre un peu chaque matin.
Je l'attendais ainsi qu'un rayon qu'on espère,
Elle entrait, et disait: Bonjour, mon petit père.
Prenait ma plume, ouvrait mes livres, et s'asseyait
Sur mon lit, dérangeait mes papiers, et riait,
Puis soudain s'en allait, comme un oiseau qui passe.
Alors je reprenais, la tête un peu moins lasse,
Mon oeuvre interrompue, et tout en écrivant,
Parmi mes manuscrits, je rencontrais souvent
Quelque arabesque folle et qu'elle avait tracée,
Et mainte feuille blanche entre ses mains froisée,
Où, je ne sais comment, venaient mes plus doux vers.
Elle aimait Dieu, les fleurs, les astres, les prés verts,
Et c'était un esprit avant d'être une femme.
Son esprit reflétait la clarté de son âme,
Elle me consultait sur tout à tous moments.
Oh! que de soirs d'hiver radieux et charmants,
Passés à raisonner langue, histoire et grammaire,
Mes quatre enfants groupés sur mes genoux, leur mère
Tout près, quelques amis causant au coin du feu!
J'appelais cette vie être content de peu!
Et dire qu'elle est morte! Hélas! que Dieu m'assiste!
Je n'étais jamais gai quand je la sentais triste;
J'étais morne au milieu du bal le plus joyeux
Si j'avais, en partant, vu quelque ombre en ses yeux.
De venir dans ma chambre un peu chaque matin.
Je l'attendais ainsi qu'un rayon qu'on espère,
Elle entrait, et disait: Bonjour, mon petit père.
Prenait ma plume, ouvrait mes livres, et s'asseyait
Sur mon lit, dérangeait mes papiers, et riait,
Puis soudain s'en allait, comme un oiseau qui passe.
Alors je reprenais, la tête un peu moins lasse,
Mon oeuvre interrompue, et tout en écrivant,
Parmi mes manuscrits, je rencontrais souvent
Quelque arabesque folle et qu'elle avait tracée,
Et mainte feuille blanche entre ses mains froisée,
Où, je ne sais comment, venaient mes plus doux vers.
Elle aimait Dieu, les fleurs, les astres, les prés verts,
Et c'était un esprit avant d'être une femme.
Son esprit reflétait la clarté de son âme,
Elle me consultait sur tout à tous moments.
Oh! que de soirs d'hiver radieux et charmants,
Passés à raisonner langue, histoire et grammaire,
Mes quatre enfants groupés sur mes genoux, leur mère
Tout près, quelques amis causant au coin du feu!
J'appelais cette vie être content de peu!
Et dire qu'elle est morte! Hélas! que Dieu m'assiste!
Je n'étais jamais gai quand je la sentais triste;
J'étais morne au milieu du bal le plus joyeux
Si j'avais, en partant, vu quelque ombre en ses yeux.
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
#109 - ANJO ENFERMO, Afonso Celso
Geme no berço, enferma, a criancinha,
Que não fala, não anda e já padece...
Penas assim cruéis por que as merece
Quem mal entrando na existência vinha?!
Ó melindroso ser, ó filha minha!
Se os céus ouvissem a paterna prece,
E a mim o teu sofrer passar pudesse,
-- Gozo me fora a dor que te espezinha.
Como te aperta a angústia o frágil peito!
E Deus, que tudo vê, não t'a extermina,
Deus que é bom, Deus que é pai, Deus que é perfeito
Sim, é pai, mas -- a crença no-lo ensina:
-- Se viu morrer Jesus, quando homem feito,
Nunca teve uma filha pequenina!...
Que não fala, não anda e já padece...
Penas assim cruéis por que as merece
Quem mal entrando na existência vinha?!
Ó melindroso ser, ó filha minha!
Se os céus ouvissem a paterna prece,
E a mim o teu sofrer passar pudesse,
-- Gozo me fora a dor que te espezinha.
Como te aperta a angústia o frágil peito!
E Deus, que tudo vê, não t'a extermina,
Deus que é bom, Deus que é pai, Deus que é perfeito
Sim, é pai, mas -- a crença no-lo ensina:
-- Se viu morrer Jesus, quando homem feito,
Nunca teve uma filha pequenina!...
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
#108 - À MA FILLE ADÈLE, Victor Hugo
Tout enfant, tu dormais près de moi, rose et fraîche
Comme un petit Jésus accroupi dans la crèche;
Ton pur sommeil était si calme et si charmant
Que tu n'entendais pas l'oiseau chanter dans l'ombre;
Moi, pensif, j'aspirais la douceur sombre
Du mystérieux firmament.
Et j'écoutais voler sur ta tête les anges
Et je te regardais dormir; et sur tes langes
J'effeuillais des jasmins et des oillets sans bruit;
Et je priais, veillant sur tes paupières closes;
Et mes yeux se mouillaeint de pleurs, songeant aux choses
Qui nous attendent dans la nuit.
Un jour mon tour viendra de dormir, et ma couche,
Faite d'ombre, sera si morne et si farouche
Qui je n'entendrai pas non plus chanter l'oiseau;
Et la nuit sera noire; alors, ô ma colombe,
Larmes, prières et fleurs, tu rendras à ma tombe
Ce que j'ai fait pour ton berceau.
Comme un petit Jésus accroupi dans la crèche;
Ton pur sommeil était si calme et si charmant
Que tu n'entendais pas l'oiseau chanter dans l'ombre;
Moi, pensif, j'aspirais la douceur sombre
Du mystérieux firmament.
Et j'écoutais voler sur ta tête les anges
Et je te regardais dormir; et sur tes langes
J'effeuillais des jasmins et des oillets sans bruit;
Et je priais, veillant sur tes paupières closes;
Et mes yeux se mouillaeint de pleurs, songeant aux choses
Qui nous attendent dans la nuit.
Un jour mon tour viendra de dormir, et ma couche,
Faite d'ombre, sera si morne et si farouche
Qui je n'entendrai pas non plus chanter l'oiseau;
Et la nuit sera noire; alors, ô ma colombe,
Larmes, prières et fleurs, tu rendras à ma tombe
Ce que j'ai fait pour ton berceau.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
#107 - VERSOS DE PURA SAUDADE, Fausto José
AO JOSÉ RÉGIO
Não terá consolação
A mágoa de ver partir,
Os que nos são mais queridos.
Decerto,
Nunca serão esquecidos
Todos aqueles que andaram
Mais perto,
Que foram quase de nós,
E que em noss'alma gravaram
O jeito da sua alma,
O timbre da sua voz...
O mesmo sonho que os trouxe,
Na mesma onda os levou!...
Mas aqueles, cujos sonhos,
Nascidos como enleados
Subiram,
À mesma luz floriram,
Duma só haste caíram
Desfolhados,
Serão mais do que lembrados!...
A vida como um clarão!
Todos meus pensamentos por defesa,
Resvalo desta impotência,
A algema desta certeza:
Que não tem consolação
A mágoa de os ver partir,
De lágrimas quase no olhar,
Sorrindo...
Partindo...
Não terá consolação
A mágoa de ver partir,
Os que nos são mais queridos.
Decerto,
Nunca serão esquecidos
Todos aqueles que andaram
Mais perto,
Que foram quase de nós,
E que em noss'alma gravaram
O jeito da sua alma,
O timbre da sua voz...
O mesmo sonho que os trouxe,
Na mesma onda os levou!...
Mas aqueles, cujos sonhos,
Nascidos como enleados
Subiram,
À mesma luz floriram,
Duma só haste caíram
Desfolhados,
Serão mais do que lembrados!...
A vida como um clarão!
Todos meus pensamentos por defesa,
Resvalo desta impotência,
A algema desta certeza:
Que não tem consolação
A mágoa de os ver partir,
De lágrimas quase no olhar,
Sorrindo...
Partindo...
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
#106 - A GOTA DE ÁGUA, Augusto Gil
A lágrima triste
Que por ti surgiu
Mal que tu a viste,
Quase se não viu...
Como quem desiste,
Logo se deliu...
E, mal lhe sorriste,
Logo te sorriu.
Já não era a dor,
O sinal aflito
Duma funda mágoa;
Era o infinito
-- O infinito amor
Numa gota de água...
Que por ti surgiu
Mal que tu a viste,
Quase se não viu...
Como quem desiste,
Logo se deliu...
E, mal lhe sorriste,
Logo te sorriu.
Já não era a dor,
O sinal aflito
Duma funda mágoa;
Era o infinito
-- O infinito amor
Numa gota de água...
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