quarta-feira, 12 de outubro de 2016

#104 - SONETO, Carlos Queirós

Num veleiro chegou aquele dia
Do teu adeus e lágrimas no cais
De há muitos anos: Sim, há muitos mais,
-- Quando, talvez, nem mesmo cais havia...
Tu eras minha, lembras-te? e chovia;
Mas não em nós: somente sobre o arrais
De oleado vestido... vendavais
Uma aragem do norte prometia.
Que nuvem tão cerrada de gaivotas
Tanto tempo de ti me separou!
Que alegria que foi as velas rotas
Quando perto do porto a nau parou!
Que estranhas e fantásticas derrotas
Alguém, batendo à porta, malogrou!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

#103 - DE TÃO PERTO, Miguel Serras Pereira

Chega a doer olhar-te de tão perto
primeiro só tocar o infinito
da distância -- depois em toda a parte
estar por dentro dela em ti -- aí

onde a dor de te olhar se fará dia
ou o tempo agora ama e deita carne
de regresso ao imenso sol vazio
que em tudo o que acontece permanece

mortal nascente branca -- e água e pura
transparência da ausência mais extrema
por onde morre e nasce enquanto pulsa
em cada veia todo o universo

Chega a doer olhar-te de tão perto
ousar a eternidade a tempo aberto