quinta-feira, 8 de setembro de 2016

#93 - COLONO, João Fonseca Amaral

à memória de João Luís do Amaral

Quase perdida a memória das frias águas
escorrendo pelas encostas
bíblico fitavas esta chuva
estes ventos
estas árvores de grandes sombras.

Os caminhos da juventude entre Douro e Minho
a casa velha da quinta dos invernos
-- tudo palavras de um livro arrumado na estante
que (para o manter vivo)
de longe em longe passava pelos olhos.

Pão levedado de erros e grandezas
aos dentes da vida te deste inteiro
enquanto a cidade nascia sob os teus pés
crescia
e as raízes da rotina milímetro por milímetro
se iam afundando.

Partiste
sem te despedires
para a licençla ilimitada mais definitiva
mas entre Chamanculo e Xipamanine
o chão que pisaste
retém teu nome para sempre.

Maotas, 1953

domingo, 4 de setembro de 2016

#92 - PONTE EM RUÍNA, João de Castro Osório

A ponte, no rio
Da Vida, rompeu-se ao meio...
Ninguém nela passa...
Para além, arcos de sonho;
Aquém, arcos de desgraça.

Ponte que nem ligas
Sonho e desgraça, não mais
Me trarás ninguém,
Dos céus do sonho à tristeza,
Do mundo ao sonho de além.

Só, dentro da vida,
Sobre os inúteis pilares
Sem arcos de esp'rança,
Vejo os caminhos perdidos
No futuro e na lembrança.