quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

#72 - "Non chegou, madr', o meu amigo", D. Dinis

Non chegou, madr', o meu amigo,
e oj' est' o prazo saído!
          Ai, madre, moiro d'amor!

Non chegou, madr', o meu amado,
e oj' est' o prazo passado!
          Ai, madre, moiro d'amor!

E oj' est' o prazo saído!
Por que mentiu o desmentido?
           Ai, madre, moiro d'amor!

E oj' est' o prazo passado!
Por que mentiu o prejurado?
          Ai, madre, moiro d'amor!

Por que mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu a seu grado.
          Ai, madre, moiro d'amor!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

#71 - SONETO, Alberto da Costa e Silva,

Cerâmica e tear: as mãos trabalham
e constroem o amor num fim de tarde
como jarro de rústico gargalo
ou fino pano arcaico. Sôbre o barro

põem desenhos mais jovens de suaves
moças dançando e restos de paisagens
da infância e da montanha: perfis núbios
sôbre o vermelho poente desse jarro.

E a substância mais tímida do sonho
nas mãos do artesão faz de seu pranto
e cismas, riso e ardor, tecido raro

em que se borda uma novilha, bela
como o beijo em setembro, em que se fez
o amor com outro fio e um outro barro.