quarta-feira, 24 de setembro de 2014

#43 - "Quando ao foro subtil do pensamento", William Shakespeare

Quando ao foro subtil do pensamento
eu convoco as memórias desta vida
cheia de sonhos vãos e, revivida,
a velha dor se faz novo tormento;

Então meus olhos baços, num momento,
a mil frontes amigas dão guarida:
volto a sofrer a mágoa já cumprida,
volto a chorar os mortos que avivento...

Então meus olhos duros embrandecem,
passo de pena em pena, e vou somando
a triste soma dos que não me esquecem,
e da noite sem fim me estão fitando:

Mas se entretanto me lembrar de ti,
perdas não tive, mágoas não sofri.

(versão: Luís Cardim)

sábado, 20 de setembro de 2014

#42 - RELÍQUIA, António Patrício

Era de minha mãe: é um pobre chale
Que tem p'ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
Da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama já puída e lassa
Deixo os meus dedos p'ra senti-la ainda;
E Ela vem, é ela que me abraça,
Fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe, mais perto, mais pertinho,
Que eu sinto quando toco o velho chale
Que guarda um não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
Sinto ao tocá-lo como alguém que embale
E beije a minha sede de amor puro.