quinta-feira, 31 de julho de 2014

#31 - "Ao meu cão bastaria um tapete", Joel Henriques

Ao meu cão bastaria um tapete
macio para se deitar
e um lugar onde possa dormir
perto do chão e durante a ferida.

Apenas procura aquele afecto
que torna possível continuar
sem evitar o respirar e a terra.

Encontra o esquecimento
sempre no fim de tudo
quando já não existe o esperado
perdido no labirinto das ruas.

Deixarei de o ouvir pela casa,
cairão os muros e os impérios
e o meu cão terá sempre um tapete.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

#30 - AQUELA CANÇÃO FATAL, Rebelo de Bettencourt

A horas mortas da noite,
Canta uma voz de mulher...
Não sei que drama adivinho
Na sua canção qualquer!

Quem canta assim, altas horas,
E acorda a rua tranquila?
Faz-me pena essa canção
E, entanto, gosto de ouvi-la!

É uma canção de amor,
Pobre, anónima, vulgar.
Mas é cheia de amargura:
Escuto-a e dá-me em chorar!

Recordo, então, o passado,
Que julgava morto em mim.
-- Coração, porque acordaste?
-- Ó dor, porque não tens fim?

-- Porque acordaste, passado,
Porque voltaste, afinal?
-- Maldita a hora em que ouvi
Aquela canção fatal!

Cala-te, voz doce e triste,
Deixa, por Deus, de cantar!
Dorme, dorme, coração,
Não tornes mais a acordar!