terça-feira, 13 de maio de 2014

#17 - MEMÓRIA DE MINHA MÃE, José Carlos González

Por que razão sempre pensei que fosses
mulher fria hierática distante
igual aos teus antepassados de Covadonga
aos celtas híbridos de Iberos
e que os teus cabelos muito jovens brancos
sinal fossem de tudo isso?

Por que razão sempre te amei tão pouco
quando amar-te era o meu mais fundo desejo
saber que quando rias era verdade
como as rias da nossa Galiza
e os recifes abruptos da velha Astúrica?

Agora que estás longe longe de mais

os teus olhos secos a tua pele com algumas sardas
o teu andar vagaroso mas vivo
agora que tudo isso é uma ideia um repouso
forçado num pequeno cemitério chamado Xiesteira

talvez comece a saber que não eras uma mulher fria
e que me amavas porventura muito
à tua hierática maneira

quarta-feira, 7 de maio de 2014

#16 - MINHA MÃE, Thales de Melo


Alguém há, coração de bondade e candura,
Que o meu tormento e as minhas mágoas amortece.
Para quem minha voz tem a maior ternura.
Para quem o meu nome é um resumo de prece.

Alguém que me acompanha e sofre e se tortura,
Se me torturo e sofro. Alguém que não me esquece;
Que faz do meu prazer toda a sua ventura;
Que se alegra comigo e comigo entristece.

Alguém que me adivinha os menores desejos;
Que sorri, se sorrio; e se desfaz em beijos;
E, feliz, me abençoa em seu amor profundo.

Alguém que se revê nos meus olhos sem brilho;
Alguém que tem orgulho em me chamar de filho:
-- Minha Mãe, doce Mãe que Deus me deu no mundo.